Cão-guia: mais que mobilidade, um olhar para quem enxerga no escuro

Caminhar sem tropeçar, atravessar uma via naquele vaivém de pedestres, entrar e sair de ambientes, é algo simples para qualquer pessoa, certo? Errado! Para pessoas com deficiência visual – cegas ou com baixa visão – qualquer uma dessas ações pode ser uma árdua tarefa. É aí que entra em cena o cão-guia, para garantir mobilidade, autonomia e confiança a pessoas com deficiência visual. Para Thiago Bornia, 38, administrador e estudante de psicologia, a experiência com o cão-guia começa a ser uma realidade, após ter iniciado um projeto há um ano e meio - seguido de inscrição no site do Instituto Magnus - para obtenção do tão desejado companheiro.

Conhecido no Instagram por escrever palavras de fé – ele tem mais de 26 mil seguidores -, Bornia, que é diagnosticado com síndrome de Usher tipo 2, que é a junção da perda auditiva de leve a moderada não progressiva mais a retinose pigmentar, conseguiu que sua história de vida e superação chegasse ao Instituto Magnus - entidade de assistência social que surgiu em novembro de 2015, em Salto de Pirapora, na região de Sorocaba (SP) -, doador ao administrador do cão-guia Xarife, de 2 anos de idade. “Estamos na fase de um treinamento de nove dias, com os treinadores do Instituto, para que o Xarife aprenda máximo da minha rotina e eu consiga ter sensibilidade do movimento dele. O treinamento é mais difícil por eu ter ponto de referência, não ser totalmente sem visão. Estou aprendendo a deixar o Xarife me guiar”, conta Bornia, que possui uma visão tubular com campo visual de menos de 20% de quem enxerga normalmente.


Nos últimos quatros anos, Bornia teve a retinose agravada, o que o motivou a começar uma jornada pela obtenção de um cão-guia. No último dia 17 de julho, o administrador e estudante de psicologia foi buscar Xarife no Instituto, após mais de seis horas de viagem de Londrina, no Paraná, até Salto de Pirapora. De volta a sua cidade natal, Bornia se adapta às rotinas de cuidado que ele também desempenha com o cão-guia: alimentação, passeio matinal, acomodação à noite. “Dou ração duas vezes por dia, passeio meia hora com ele pela manhã. A caminha dele fica próximo da minha cama. Os treinos com os instrutores têm sido trabalhosos, mas estamos evoluindo”, conta.


Xarife está sendo treinado para acompanhar Thiago Bornia em suas atividades do dia a dia, que incluem treinos em academia – atualmente ele se prepara para competições de paraciclismo -, ir à faculdade onde estuda o 3º ano de Psicologia, aos cultos da Bola de Neve, igreja a qual é membro. “Meu primeiro contato com o Instituto Magnus, pessoalmente, foi em novembro de 2018. Na época, o pessoal não atendia quem não era da região de Sorocaba. Embora eu tenha lançado o projeto pelo cão-guia há um ano e meio, o Instituto me atendeu mais rápido que eu imaginava. Foi por Deus mesmo”, reconhece.


História de vida


Segundo Bornia, a retinose vem se agravando, de forma significativa, nos últimos quatro anos, sendo que nos dois últimos, com maior comprometimento. Embora na adolescência as percepções das dificuldades eram mínimas, Thiago Bornia diz que para os pais dele havia a atenção redobrada. Os agravamentos surgiram a partir dos 20 anos, de forma lenta, porém significativa em várias situações, como: dificuldade de frequentar lugares mais fechados com pouca iluminação. “A partir dos 27, 28 anos, começou a mudar minha rotina de lugares a serem frequentados. Por volta dos 30, já tinha dificuldade de dirigir a noite; aos 32 parei de dirigir a noite e aos 35 eu parei de dirigir durante o dia, porque influenciava em todo reflexo, discernimento do ambiente”, detalha.


Hoje, Bornia vive uma situação mais limitada de todo o processo degenerativo. Com relação à locomoção, andar sozinho à noite é algo bem difícil. “Eu até poderia ir a lugares que eu conheço muito bem, através do piso tátil, mas lugares desconhecidos não consigo sem ajuda da bengala ou de alguém. Durante o dia, dependendo da claridade, gera fotofobia, então também me complica. Entrar em lugares, algum tipo de armazéns ou mercados menores, me compromete bastante, para localizar algumas coisas. A retinose vai limitando bastante e a gente passa a depender de mecanismos como: a bengala, o tato, pessoas, o cão-guia. A audição não é progressiva, mas no meu caso, para ter um aproveitamento, uma qualidade de vida, uso aparelho auditivo”, explica.


Instituto Magnus


Com uma estrutura física de 15.000 m² (metros quadrados), a inauguração oficial do Instituto Magnus aconteceu em 28 de setembro de 2018, em Salto de Pirapora (SP). Além de garantir o conforto, uma excelência de atendimento e um patrimônio completamente acessível para que todos sejam muito bem-vindos, o Instituto possui um acolhimento específico para adaptação da pessoa com deficiência visual e os futuros cães-guias.

Segundo Janaina do Nascimento Teixeira, coordenadora de Relacionamento do Instituto Magnus, Thiago Bornia havia se inscrito em setembro de 2018, pelo site da instituição. “Enquanto o cachorro está no processo de formação, a gente procura uma pessoa que seja compatível com esse cão, para fazer a entrega. Depois que ocorre a entrega, tem um período de adaptação da pessoa e do cachorro, da dupla, que demora aproximadamente 30 dias. Cada pessoa e cada cachorro tem seu tempo de aprendizado, por isso, a estimativa é de 30 dias, para saber como cuidar da saúde, alimentação, limpeza, quais brincadeiras são permitidas, horário de dormir do cão, os comandos que a pessoa precisa ter para ser guiada por ele”, explica a coordenadora.


De acordo com Janaina, após o período de 30 dias, a dupla é graduada para trabalhar junto e, apesar disso, são realizadas visitas mensais, sendo três nos primeiros meses. Posteriormente ao primeiro trimestre, os instrutores fazem visitas a cada três meses até completar um ano e, após esse período, pelo menos uma visita anual, sempre para avaliação e orientação do processo. “Esse acompanhamento continua sendo feito até a aposentadoria do cachorro, que é em média aos 10 anos de vida. Somente quando ele se aposenta e vira um cão pet da pessoa, que não vai mais trabalhar, o Instituto não acompanha mais”, detalha.


Família socializadora


Um dos projetos do Instituto Magnus é o Família Socializadora, que permite a voluntários a acolhida de filhotes nas casas para serem responsáveis por apresentá-los à sociedade. Cabe à família socializadora ambientar o filhote nos mais diversos espaços, inclusive, conviver com outras pessoas e animais. Após um período de um ano de convívio, o futuro cão-guia retornará ao Instituto Magnus para completar o treinamento e ser entregue a uma pessoa com deficiência visual. “Tem que se inscrever no site – institutomagnus.org - gostar de cachorro, ter tempo para acompanhar e ensinar tudo o que ele precisa aprender, incluí-lo em toda a rotina familiar. Fazemos uma seleção das famílias e com 2 meses de vida, dando tudo certo, elas recebem os filhotes. Durante esse processo de um ano com as famílias, existe o acompanhamento do Instituto, com visitas periódicas para avaliação. O Instituto oferece consultas veterinárias, vacinas, medicamentos, castração, brinquedos, ração, escovas de dentes e de pelo. A família não tem gastos para socializar o cão. A família socializadora trabalha na inclusão, ao levar o cão em todos os lugares”, enfatiza a coordenadora de Relacionamento do Instituto, citando a Lei Federal 11.126, que desde 2005 assegura o direito de permanência de cão-guia em todos os estabelecimentos de ordem pública ou privada, de uso coletivo.


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